Abaixo as fronteiras

Cairo de Assis Trindade

Uma das características mais marcantes da pós-modernidade é a de romper com os limites entre os gêneros, criando a possibilidade do “híbrido”, fundindo dois ou mais gêneros em uma só obra de arte. Assim, um filme pode ser ao mesmo tempo um documentário recheado de ficção, ou vice-versa; um quadro pode ser uma colagem de elementos além da pintura, como palavras e objetos; e a poesia passou a incorporar elementos da prosa, da música, da performance.

Se antes já existia o poema narrativo, contando uma história inteira, com princípio, meio e fim — às vezes até com prólogo e epílogo —, hoje já existe uma espécie de filhote do poema/piada — um tipo de poesia quase prosa, reflexiva, de humor, surgida na década de 20 do século passado. Dentro de um conceito análogo, mas mais abrangente, surge com força total o CONTO-POEMA ou o POEMA-CONTO. Ou seja, o texto com alguns elementos essenciais da poesia (linguagem poética, formato, rima) e os do conto (narrador, personagem(s), espaço cênico e, circunstancialmente, até mesmo diálogo).

Poemas/contos exemplares:

O dentro disse ao fora:
“Entra!”
O fora disse ao dentro: 
“Sai!”

E cada um, resoluto,
restou irredutível
no seu reduto.
Marcio Catunda (Ceará)

O sol apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz baixinho:
“Esquece… esquece…”
Helena Kolody (SC)

Quando eu disse a uma amiga 
que estava apaixonada,
ela me respondeu: 
— É princípio de Alzheimer. 
Eu ri muuuuuito! E pensei:
“Só os loucos se apaixonam”.
Rachel Levkovits (Rio)

por desencontro do lugar marcado
jamais puderam ser felizes:
ele a esperou de um lado,
ela o buscou na outra ponta
do arco íris.
Mayda Zaniratto (SP)

“Sou o que pareço”,
disse a face
a seu avesso.

“Ninguém se conhece”,
sussurra o avesso
em sssssss
Cairo Trindade (Rio)

“Vai ser só a cabecinha”,
sussurrou à Antonieta,
ajeitando a guilhotina.
Simão Pessoa (Amazonas)

Estes pequenos textos poderiam ser considerados minicontos ou micro contos, mas foram escritos por poetas e têm sido publicados como poemas. Na verdade, são poemas/contos — um tipo diverso e totalmente contemporâneo de poesia.

Um dia, não haverá mais fronteiras. Nem mesmo entre as artes. 
“Imagine there’s no countries”, John Lennon.

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