Curso de Escrita

CAIRO TRINDADE

Poesia enxuta ou masturbação?

Para escrever um texto literário, assuma um olhar poético sobre algo que mexa com vc. E comece a escrever o que vier à sua cabeça, sem repressão, sem pudor, mas com o pé no freio.

Muita atenção, concentração e espírito livre. Sabendo que o leitor quer ler algo novo ou dito de um jeito novo. Sem perda de tempo. Diga tudo sem divagar, sem adjetivar, sem repetir palavras — a não ser que propositalmente e com propriedade — sem enrolar. Ninguém quer perder tempo, ainda menos com abobrinha. Detalhes desnecessários. Não me alugue. Não quero ler poesia para dar sono. Eu quero poesia que me excite. Ou que me nocauteie.

 

PROLIXO PRO LIXO

Mesmo assim, é absolutamente necessária uma segunda leitura, ‘‘o tempo de gaveta”, como disse o Maiaka. Para alguns, Maiakovski. O esquecimento no freezer. Depois, uma releitura, como se Vc/Autor desconhecesse quem escreveu. E pudesse fazer uma avaliação isenta, uma crítica feroz. O enxugamento necessário para ajustar cada palavra e dizer só o que Vc/Leitor gostaria de ver num texto.

Todo poema deve ter uma unidade. Como um conto, como uma piada. Não cabe mais escrever “como os nossos pais”. E pior, como se eles fossem ler para os nossos avós. Com informações desnecessárias ou registros realistas não só de personagens como de ambientes e circunstâncias. Com explicações barrocas, ou pior, estilo rococó. Não cabe mais uma nova versão de Tabacaria ou A luta corporal, por exemplo.

Para escrever poemas longos, o poeta tem que ser gênio. Maior do que o Pessoa ou do que o Gullar. E buscar um público específico. Não o povo que lê, e sim uma minúscula elite acadêmica, com disponibilidade de tempo integral, ou senhoras e senhores aposentados.

Poucos são os poetas que sequestram o leitor com sua inteligência e sensibilidade. Poesia é filé mignon, como sabia Paulo Leminski e como dizia Wally Salomão. E não foi à toa que Oswald de Andrade criou o poema minuto, há quase um século. E que o haicai volta agora com toda a força, repaginado. Com rimas, métrica livre, temas bem variados e, muitas vezes, humor escancarado, bem brasileiro, mais carioca.

Mas nada disso importa se o texto for fodástico.

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