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Enigma

sou este ponto de espanto
no entra-e-sai — no vai-e-vem
metade de mim é quando
a outra metade é quem

parte em mim é desespero
outra parte desencanto
só sei ser múltiplo inteiro
quando eu amo — quando eu canto

tento juntar os pedaços
passos, pessoas, passado
não sei onde estão meus rastros
meu retrato mais exato

entre estes cacos e restos
nem perfil nem biografia
se me perdi nos meus versos
um dia viro poesia



MEMORABILIA

guardam-se em memorandos os quês, os quens, os quandos.
entre flashes perdidos no tempo, desenha-se incerto esboço:
sonhos, sombras, rostos, nomes, toques, gostos.
recriam-se as cenas, os planos-seqüência.


carrega-se nas tintas, apagam-se alguns traços,
ganham vida personagens. vestem-se as imagens,
engendrando gestos possíveis da engrenagem.
congelam-se momentos e se auscultam cérebro, coração e células.


abre-se o foco ao máximo e se deixa ir o pensamento em liberdade pela página,
pela mão, por improváveis cenários, até alçar vôo nas asas do imaginário. 

consultam-se agendas antigas, velhos álbuns de retratos, 
cartas extraviadas, vídeos, vestígios velados nos desvãos do esquecimento.


revela-se, quadro a quadro,
o abismo entre memória e passado.



LABIRINTO

preso a meu corpo preso a meu peso
preso a meu porto – meu endereço

preso a meu nome preso ao presente
a meu telefone – meu desespero

preso a meu ego preso a meu preço
ao que carrego e ao que careço

preso aos pesares preso aos prazeres
preso ao prosaico a pressões preconceitos

preso a prazos horários agenda
conta bancária – quanta corrente

preso a números e documentos
preso ao desprezo que sinto por eles

detento de tantos, exilado em mim mesmo
sou refém e carcereiro

tenho as chaves e as algemas
e entre grades que eu invento

me liberto
no poema



TRANSBORDAMENTO

a inspiração às vezes 
cai, às vezes, ai,
nem bem vem, passa
perto e, na hora, vupt,
voa, vai embora.

como a vida que se esvai,
um dia esta pálida página
há de ficar vazia.
agora eu tô por fora
e não tô prosa
nem poesia.



VATE EM TRANSE

poema só se faz poesia
se emitir mensagem
se tiver magia
se for viagem

(o poema não é um monte
de palavras vomitadas:
é um vírus visceral
revolucionário)

e um poeta só será poeta
se for fundo, inteiro, intenso
e viver sempre entre
a vertigem e a voragem



IN EXTREMIS

Quero que venhas 
cheia de desejos
com a alma nua 
a me cobrir de beijos.

Quero que entres plena
tragas mil carícias
sede por lascívias 
fome de prazer.

Quero que chegues
como quem vai matar.
E que fiques
como quem vai morrer.